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EDITORIAL | O festim dos 900 anos do Foral e a incúria de Vasco Ferraz

 AVELINO CASTRO – diretor

Jornal CARDEAL SARAIVA  26 JUN 2026

EDITORIAL

Enquanto o Município de Ponte de Lima se desdobrava em festejos para assinalar os 900 anos da atribuição do Foral a Ponte de Lima, a Casa da Baldrufa era abandonada até ao seu destino fatal: a demolição.

Durante um ano inteiro Ponte de Lima festejou os 900 anos da atribuição do Foral à vila, festejos que terminaram no passado dia 4 de março. Foi o culminar da celebração de nove séculos de memória com pompa, discursos inflamados e fogos de artifício. Um autêntico festim! Ao mesmo tempo que se celebrava a história, era traçado o destino fatal da Casa da Baldrufa. Volvidos apenas três meses de tão inflamada celebração, estamos perante um facto consumado de mais um atropelo ao património limiano com a demolição da Casa da Baldrufa.

Ponte de Lima está em alvoroço perante o atentado perpetrado contra uma casa com inegável valor histórico e arquitetónico. A população protesta nas redes sociais, mas sente-se impotente perante um executivo camarário que deitou a toalha ao chão – ou a deixou cair propositadamente.

A Quinta da Baldrufa foi esventrada há quarenta anos para receber a via que iria ligar a Feitosa à nova ponte de Nossa Senhora da Guia. No seu traçado, a estrada rasgou a quinta a meio e, nesse local, desenhou uma curva extensa num desvio geométrico, e completamente desnecessário, até ao cruzamento da Rua Agostinho José Taveira. Durante anos, este cruzamento da Baldrufa foi sinónimo de acidentes e ali pereceram pessoas em desastres rodoviários. Só mais tarde a segurança foi melhorada com a passagem desnivelada que hoje conhecemos.

Qualquer leigo percebia, na altura, que o traçado com aquela curva não era o ideal. Ao que parece – e sempre pareceu – já na altura havia “influencers” que conseguiram mudar o trajeto da via para que não fossem expropriados os seus terrenos. Aquela curva nunca deveria ter existido e, se não existisse, a Quinta da Baldrufa não teria sido esventrada. Falta de visão na altura? Ou visão curta até ao bolso de alguém? Provavelmente, as duas coisas.

O proprietário da época, António Porto-Além, não conseguiu travar o desígnio do asfalto. Restou-lhe a casa, que agora está a ser demolida.

Nessa altura, a forma de encarar a cultura, o património e a defesa dos valores ancestrais era ainda incipiente. Hoje, volvidos 40 anos e com uma maior sensibilização sobre estes temas, os atropelos continuam aos olhos de todos.

O historiador Miguel Ayres de Campos-Tovar mostrou-se preocupado com o futuro desta casa histórica e, na Assembleia Municipal de Ponte de Lima de 28 de fevereiro passado, questionou o presidente da Câmara de Ponte de Lima, Vasco Ferraz, sobre a intenção de considerar o imóvel como de interesse municipal.

Na resposta, Vasco Ferraz argumentou que o dono já tinha intervido no prédio e feito alterações, pelo que não avançou, nem iria avançar, com esse pedido. O autarca foi mais longe e acrescentou que ele próprio iria interferir para que a tutela também não o fizesse.

Como é do conhecimento público, Vasco Ferraz assume a presidência da Câmara Municipal e ainda bem porque senão poderíamos ter um problema para resolver. Caso Vasco Ferraz fosse bombeiro e chamado para prestar socorro e aí se deparasse com um edifício a arder, ele deixá-lo-ia arder até ao fim. E ainda mais: não deixaria ninguém intervir para se assegurar que o prédio arderia na sua totalidade.

Hoje a Casa da Baldrufa “está a arder” e “bombeiro” que deveria ter entrado ao serviço há muito virou as costas ao assunto.

No meio deste bulício Vasco Ferraz ainda se vangloria do facto do atual proprietário da Casa da Baldrufa ter oferecido o pórtico à Câmara. Pasmem-se, segundo o autarca, o pórtico da quinta irá parar uma rotunda existente ou a construir. O presidente deveria perceber que tal oferta é um prémio envenenado. É como o caçador que oferece ao amigo a cabeça da caça embalsamada: não serve para nada a não ser para registar o mau gosto. No futuro, quando circularmos por essa tal rotunda, iremos recordar a incúria e o desleixo demonstrado pela autarquia presidida por Vasco Ferraz.

É também assaz simpático perceber que o proprietário da Casa da Baldrufa é também proprietário do prédio do Largo de Camões, parado há anos, o qual guarda vestígios da ponte medieval.

Vasco Ferraz está a cumprir o segundo mandato na presidência da Câmara Municipal de Ponte de Lima. Em anteriores mandatos já tinha assumido a vereação com o pelouro do urbanismo, pelo que, a acrescer à sua formação em engenharia civil, não pode dizer que este caso lhe caiu do céu sem que ele desse por isso. O que faltou, então, a Vasco Ferraz? Ou, o que acrescentou?

A Casa da Baldrufa hoje “arde” nas mãos de um “bombeiro” que demonstra desleixo, alheamento e desrespeito pelo património local. E, desta forma, chegamos a um facto consumado: parte da casa já está demolida e um posto de abastecimento de combustíveis irá surgir naquele espaço da quinta. O resto da casa irá abaixo em breve para dar lugar a novas construções.

O derradeiro proprietário a usufruir da casa, António Porto-Além, pessoa de grande sensibilidade, morreria hoje de desgosto se por cá andasse. Foi ali, sob a copa da árvore que amava e em comunhão com a natureza circundante, que encontrou paz nos anos finais. Foi o seu santuário. Todos aqueles que partilharam esses dias com ele, perceberam como essa devoção ao lugar era notória e comovente.

Em tempos, ali se fez poesia. Hoje, apaga-se a memória e o povo fica a aguardar mais um festim.

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