OPINIÃO | A entrevista de Augusto Santos Silva

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Hélio Bernardo Lopes

Completamente dentro do que seria de esperar, a entrevista de ontem de Augusto Santos Silva, nosso Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, foi muitíssimo interessante, revelando um conhecimento dos temas mais diversos que lhe foram colocados, mas também uma mais que reconhecida qualidade política.

Num certo sentido, quase não valeria a pena operar um qualquer comentário sobre a mesma. Porém, o tema da vacinação, mormente ao redor do inacreditável comportamento ocidental para com as vacinas russa e chinesa, secundarizando a salvaguarda dos direitos naturais dos europeus, justifica que esteja agora a escrever estas palavras.

Não tem razão, no plano das normas em vigor, nem no do mérito relativo das atitudes políticas dos mais diversos Estados, seja neste caso das vacinas russa e chinesa, seja noutros domínios, quando recusa o recurso a estes dois fármacos pelo facto de não ter ainda a Agência Europeia dos Medicamentos considerado a respetiva validação para a utilização dos mesmos.

Não é aceitável este argumento, dado que se reconhece há muito que o que está em jogo nestes casos se deve apenas à defesa da aparente superioridade ocidental. Que também está aqui em jogo uma questão geopolítica, já o reconheceram Adalberto Campos Fernandes, no debate que teve com João Ferreira, creio que na TVI 24, e também João Soares, no passado domingo, no seu diálogo com Miguel Poiares Maduro, no noticiário da noite da RTP 1. E bastaria que a Alemanha, ou a França, se tivessem determinado a deitar mão da Sputnik V – a Alemanha esteve à beira de o fazer, mas lá se conteve, em face das pressões norte-americanas –, para que logo o nosso ministro apresentasse uma outra explicação, certamente sem pôr em causa a decisão alemã.

Pois, hoje de manhã, ao redor do ligeiro sismo de que me dei conta ainda na cama, mas já a acompanhar as notícias, eis que o nosso Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo se referiu que de todas as vacinas aprovadas, incluindo as russas ou chinesas, se deve deitar mão, de modo a materializar, com probabilidade elevada, os objetivos estabelecidos e que tão essenciais são a Portugal. A verdade é que a consciência e a alma existem mesmo, incluindo com o Presidente Vladimir Putin, pelo que se torna difícil fingir que não se percebe a verdadeira realidade que está por detrás desta morosidade da Agência Europeia dos Medicamentos, que, ao contrário do que referiu Augusto Santos Silva, não é, nem deixa dde ser, formada pelos melhores técnicos do mundo em cada um dos seus domínios. E depois, tal estrutura, dada a natureza humana, terá sempre de ser permeável às orientações de quem realmente manda, que são, no Ocidente, os Estados Unidos.

Mau grado tudo isto, foi mais uma entrevista muito brilhante, mostrando uma dominância profunda dos temas da governação – nacional, europeia e global –, apenas com esta pecha das vacinas russa e chinesa. Também aqui os Estados Unidos estabeleceram linhas vermelhas – e então com os democratas no poder… –, como já se havia visto com o ultimato norte-americano a Portugal, ao redor do 5G. De facto, foram os nossos detentores de soberania que decidiram, só que, por mero acaso, decidiram como nos impunham os Estados Unidos. Mero acaso, claro está.

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