Em Tui, a morte é uma festa. A vila galega que serve de porta a Portugal despede-se este domingo do Entrudo da maneira mais insólita e teatral que a memória local conhece.
A grande comitiva do Enterro do Bacallau já começou a encher as ruas de luto e folia. A tarde vai caindo sobre as fachadas de pedra e as estreitas ruas da cidade histórica, e o que se vê é um funeral de choro e riso.
Mais de uma centena de foliões vestidos de negro, com véus, chapéus e rostos sérios e muitas vezes soltando risos, acotovelam-se na Praça de São Fernando à espera do defunto.
O defunto, um bacalhau gigante e caricato, transportado com toda a solenidade pela comparsa vencedora do concurso de carnaval, vai ser velado com honras de um ente querido.
O cortejo arrancou ao final da tarde e serpenteia agora por Seixas, Porta da Pía, Ordóñez e Corredoira, parando nos pontos estratégicos para que as coplas sejam entoadas. São quadras satíricas, afiadas como navalhas, que cantam a actualidade local e emprestam a esta cerimónia pagã um ar de tribunal popular onde tudo pode ser dito em voz alta.
O que torna este Enterro único não é apenas a substituição da sardinha pelo bacalhau, uma herança direta dos tempos em que Tui era praça forte de comércio com Portugal, mas a maneira como a cidade inteira se entrega ao faz-de-conta. Durante todo o dia, as ruas têm sido tomadas pela música: de manhã, foi a charanga tudense “Cantos Somos” a aquecer os ânimos; ao início da tarde, a batucada da “Levada Arraiana” de Estás, Tomiño, estreou-se na vila e fez o chão tremer até à hora do funeral.
Agora, é a vez do séquito fúnebre rumar ao parque de estacionamento municipal, o local escolhido para a incineração solene do bacalhau. Quando as chamas consumirem o peixe, o Entroido terá oficialmente expirado. Até lá, Tui vive suspensa neste instante em que a morte, afinal, sabe a festa.






