O Auditório Municipal de Ponte da Barca encheu-se no domingo, 3 de maio, para a apresentação do livro “Conta lá, Avó!”, uma obra que reúne testemunhos de gerações mais velhas do concelho e os converte em registo vivo de património imaterial. A sessão contou com a presença de muitos dos entrevistados, que partilharam bancada com os técnicos e artistas envolvidos na recolha, edição e design gráfico, bem como com o presidente da Câmara, Augusto Marinho, e restantes vereadores.

A compilação das narrativas ficou a cargo do professor Luís Arezes, cujo conhecimento da história e das tradições locais permitiu estruturar os depoimentos com coerência e rigor. A obra não se limita a transcrever as recordações: inclui ainda um enquadramento histórico que ajuda a situar cada relato no seu contexto social, cultural e económico, conferindo-lhe uma sólida dimensão documental. A apresentação foi moderada pelo jornalista da Rádio Barca, Nuno Cardoso, que promoveu um diálogo próximo entre todos os intervenientes.
Ao longo da tarde, vários dos protagonistas partilharam com o público as memórias que integram o livro. Conceição Silva trouxe à luz um batizado realizado à meia-noite na Ponte Medieval, com o rio Lima como pano de fundo e a fé como elemento central de uma recordação que perdura. José Braga, natural e antigo trabalhador da Central Hidroelétrica de Paradamonte, onde passou mais de duas décadas, evocou a sua longa ligação àquele lugar. Manuel Antunes, natural de Vila Chã de São João, narrou os caminhos do contrabando que percorreu a partir dos 14 anos, num período em que a fronteira se impunha pela dureza e pela necessidade.
A tradição cantada do “Amentar às Almas” marcou presença através de duas vozes: Maria Barbosa, de São Martinho de Crasto, e Celeste Silva, de Bravães. Ambas descreveram esta prática como um elo profundo entre comunidade, espiritualidade e identidade, atravessando gerações pela oralidade. Do Barral, na mesma freguesia de Vila Chã de São João, várias mulheres – Rosa Gonçalves, Carolina do Souto, Maria Gomes, Rosa Reis e Maria Branco – recordaram as aparições de Nossa Senhora da Paz, mantendo viva a força da devoção popular.
Ainda no concelho, Alice Rocha falou dos Romeirinhos à Santinha da Barca, uma manifestação religiosa enraizada na cultura local. De Oleiros, Maria de Fátima Costa trouxe a memória do fabrico de fogo, tradição centenária que marcou a freguesia e perdura como símbolo da sua história. No conjunto, estes relatos desenham um retrato coletivo de Ponte da Barca, onde o trabalho, a fé, os rituais e o quotidiano se entrelaçam.
A vertente cultural da sessão ficou a cargo do Grupo de Gaitas e do Grupo de Cordofones da Câmara Municipal, bem como das Cantadeiras de Crasto e de Bravães e da Academia de Música de Ponte da Barca. Com esta obra, o concelho ganha um instrumento de preservação da memória oral, escutando antes de registar e devolvendo à comunidade as histórias que a definem.



