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A mesa era de madeira escura, polida pelo tempo e pelas conversas que ali tinham pousado. Não sei bem onde ficava aquela sala, se era memória, se era sonho, se era um daqueles lugares para onde vamos quando o tempo já não tem pressa. Mas estávamos lá os três: eu, a Carolina e o Álvaro. Ela, minha filha, com o mesmo olhar doce de quando era pequena e se sentava no balcão da papelaria a desenhar letras que não sabia ler. Ele, o Álvaro, sempre calmo, sempre pronto para uma piada.
A luz que entrava era mansa, dessas que parecem nascer do próprio ar. E à volta da mesa, as palavras vinham devagar, como quem tem todo o tempo do mundo.
Foi em 1910, no dia 15 de Fevereiro. Guardei esta data dentro de mim como se guarda uma semente. Saiu o primeiro número do Jornal Cardeal Saraiva. Passados cinco meses, peguei nas rédeas. E com elas veio a responsabilidade de trazer a impressão para cá, para Ponte de Lima.
As máquinas vieram do Porto. Fiquei a olhar para aqueles monstros de ferro e a pensar: agora o jornal é nosso, da terra, feito aqui. Cheirava a óleo, a metal, a tinta fresca. Os compositores, homens de mãos grossas mas dedos finos, começaram a arrumar as caixas, as letras, os espaços. E eu ali, a ver, a aprender.
A tipografia tinha vida própria. Havia um rumor baixo, um chiar das prensas, um bater dos tipos no componedor. E o cheiro da tinta a entrar pelo nariz, a misturar-se com o pó do papel. Saía de lá com a alma cheia.
A papelaria era outro mundo. Não era só comércio, era o coração da vila. Entravam o padre, o desembargador, o farmacêutico e o poeta. Sentavam-se e falava-se de tudo, da colheita, do governo, das notícias que vinham de França. Eu ouvia, dava a minha opinião, e muitas vezes ali se combinava o artigo da semana.
A minha secretária vivia coberta de papéis. Parecia uma desordem, mas tinha a minha ordem. Um dia alguém mexeu e eu disse: Ai, que já me baralhaste isto tudo! Não perceberam que cada papel estava onde eu sabia que estava. As contas, os artigos, as cartas, as ideias. Tudo à mão.
Apareceu um viajante do Porto com amostras de papel. Viu-me a escrever na velha máquina de escrever Underwood com dois dedos e comentou que agora se escrevia com todos. Eu não disse nada. Acabei o texto, levantei a folha e perguntei: com quantas mãos foi escrito isto? Desatámos os dois a rir. Ficámos amigos.
Um dia entrou um miúdo franzino, descalço, a pedir esmola para a mãe doente. Abri a gaveta e estava vazia. Disse-lhe: Espera aí. Entrou um lavrador, comprou papel e lápis. Pedi-lhe que entregasse o dinheiro ao menino. Ele entregou. O miúdo sorriu e saiu a correr. Fiquei sem nada na gaveta, mas com o coração quente. A Alfredina, quando soube, disse: És mesmo tu, Avelino.
Em 1926 veio a censura. O jornal tinha de ir ao Departamento de Censura, aguardar, e muitas vezes chegava com o temido lápis azul. Numa semana, um artigo sobre o presidente da Câmara voltou riscado. Fiquei com um rombo na edição. Mandei pôr gravuras de animais para tapar o espaço. O presidente achou que era afronta. Fui preso.
Na cela, sentei-me e pensei se valera a pena. No dia seguinte, os jornais do Porto noticiaram. Choveram telegramas a pedir a minha libertação. O “Cardeal Saraiva” fez duas edições especiais. Soltaram-me. Quando saí e vi gente à minha espera, senti o coração quente outra vez.
Havia dias assim: sentíamos o calor das pessoas, mas também o calor dos dias. Recordo esses dias de calor, saía da tipografia, atirava o casaco por cima do ombro e lá ia eu. Atravessava o Largo de Camões devagar, a sentir a brisa do rio. Era o meu momento.
Agora, sentado aqui com a Carolina e o Álvaro ao meu lado, penso em tudo. Desde 1910 até 1959 estive ali a dar o meu melhor pelo jornal e pela terra que tanto amo. Depois parti. Mas o jornal ficou.
E de repente fico sem palavras coma novidade. Lá em baixo, na terra que eu deixei, já há um neto a dirigir o jornal! E tem o meu nome: Avelino. Ele está no meu lugar, a dar continuidade ao que comecei.
Que contente que estou em saber disso! Que as palavras não morreram. Que a voz de Ponte de Lima continua atenta.
De certeza que os tempos são outros, mais difíceis, mas ele está lá para isso. Ao que parece, agora têm computadores e coisas que não cheiram a tinta…
Olho para a mesa de madeira escura, polida pelo tempo e pelas conversas que ali tinham pousado e lembro-me de tudo. Da secretária, da velhinha Underwood, do cheiro a tinta, do miúdo da esmola, do viajante, do casaco ao ombro e da brisa do rio…
É mesmo verdade que as histórias não acabam. Passam de coração em coração. Como o jornal. Como o nome. Avelino. Há sempre um Avelino.
Lembro dos festejos de aniversário do jornal. Foram muitos e, a cada ano que passava, percebia quão dura foi a luta para manter a chama do jornal viva.
É por isso que hoje me regozijo e com prazer envio votos de um feliz aniversário para o
“Cardeal Saraiva” e para todos que contribuíram, e contribuem, para que este dia fosse realidade.
E, aqui ao meu lado, a Carolina e o Álvaro festejam também este dia.
Estávamos a pensar como seria bom pedir um Pão de Ló da Pastelaria Vilar e um vinho da Adega de Ponte de Lima para saborear este dia…
Bem haja ao “Cardeal Saraiva”.
Para sempre.






