InícioGALIZAFesta do Boi regressa amanhã para celebrar tradição secular em Allariz

Festa do Boi regressa amanhã para celebrar tradição secular em Allariz

É amanhã, sábado, que arranca a edição de 2026 da Festa do Boi em Allariz, um dos eventos mais aguardados do calendário galego. Até ao próximo dia 7 de junho, a vila ourensana revive uma tradição com quase sete séculos de história, que combina lenda medieval, memória coletiva e uma explosão de música, cor e animação popular.

Para quem conhece a Vaca das Cordas de Ponte de Lima, a Festa do Boi de Allariz poderá trazer à memória algumas semelhanças. Ambas as celebrações envolvem a saída de bovinos pelas ruas e uma forte componente de participação popular. No entanto, as diferenças são substanciais e, para muitos, decisivas.

Em Ponte de Lima, a festa resume-se a um único dia, com a solta de um touro comprado no Alentejo. No final, esse touro segue para abate, o que tem motivado críticas frequentes por parte dos defensores dos animais, que apelidam a iniciativa de tudo menos de festa.

Em Allariz, a celebração prolonga-se por sete dias, e não é um único animal que sai às ruas, mas sim vários bois que protagonizam as suas saídas em cada dia da semana. Além disso, os bois de Allariz não são adquiridos para abate: são requisitados nas redondezas e pastoreiam normalmente nas terras ourensanas, integrados na vida rural da região.

O aspeto mais significativo é que nenhum destes animais vai para o matadouro. Depois da festa regressam aos seus campos, mantendo-se vivos e a pastar.

A origem da Festa do Boi remonta ao século XIV, quando a comunidade judaica de Allariz, confinada ao bairro de Santo Estevo situado fora das muralhas, vivia sob constante tensão com a população cristã que habitava a cidade amuralhada. Rezam os cronistas que, durante a procissão do Corpus Christi, os judeus aproveitavam a saída do andor para fora de muralhas (a caminho do convento) para descarregar as suas frustrações com insultos e gritos. Foi então que, em 1317, um fidalgo local de profundas convicções religiosas, Xan de Arzúa, decidiu pôr fim àqueles incidentes. Montado num boi, rodeado de criados e munido de sacos cheios de formigas, encabeçou a procissão.

Diz a lenda que, à chegada dos judeus, o animal investiu a cornadas e a chuva de formigas dispersou-os para sempre.

Desde essa data e até 1936, o Boi saiu todos os anos no Corpus Christi. A Guerra Civil interrompeu a tradição, que conheceu um lento e frágil despertar após o conflito, até se apagar definitivamente no final dos anos 50 e princípio dos 60.

“O Boi vivia escondido no coração dos alaricanos”, recorda o investigador local Antonio Blanco. Foi preciso esperar por 1983 para que um grupo de jovens decidisse recuperar a festa. E o Boi voltou a correr por Allariz, trazendo consigo o orgulho de um concelho que reencontrava as suas raízes.

O sucesso da recuperação é hoje inegável. A Festa do Boi estende-se por dez dias e atrai anualmente milhares de visitantes. A edição de 2026 promete repetir o êxito, com um programa que inclui recriações históricas, atuações musicais, saídas do boi (adulto e infantil) e a habitual envolvência de arruadas e foliões.

As celebrações começam amanhã, 30 de maio, com destaque para a recriação da Festa da Trata em Roimelo (12h30), a comida popular em Paicordeiro (14h00) e a primeira saída do Boi, marcada para as 20h30 a partir da Casa do Boi.

A organização reforça ainda os conselhos de segurança, como o respeito pelo animal, a necessidade de manter os portais abertos como refúgio e a proibição de passear crianças durante as corridas, para que a festa seja, acima de tudo, um motivo de alegria e tradição vivida com responsabilidade.

 

 

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