Miguel Filgueiras estreia “Fosfeno” na Grécia: documentário sobre cavalos garranos e a relação do homem com a natureza

O realizador português Miguel Filgueiras apresentou em estreia mundial no Festival Internacional de Documentário de Salónica, na Grécia, o seu mais recente trabalho, “Fosfeno”. A obra, que resulta de oito anos de investigação e filmagens, debruça-se sobre a relação entre os cavalos garranos e as comunidades humanas da serra do Noroeste de Portugal, num território que abrange Trás-os-Montes e o Minho.
Classificado pelo próprio realizador como “um filme de ensaio filosófico”, “Fosfeno” propõe uma reflexão poética sobre território, animismo e sobrevivência, colocando em diálogo homens, cavalos e lobos. “O filme tenta muitas vezes estar do lado dos homens, outras vezes do lado dos animais, acaba por nunca estar de lado nenhum, apenas faz uma reflexão filosófica sobre a nossa condição como animal, também”, explicou Miguel Filgueiras. “No fundo, é sobre sobrevivência humana. Começou por ser sobre cavalos, depois interage com vários animais, principalmente o lobo”.
A ideia para o documentário surgiu há mais de dez anos, após um filme realizado em 2012, quando o contacto com criadores de cavalos garranos despertou a atenção do cineasta para esta espécie singular. “É dos poucos cavalos, se não o único, em que o seu habitat natural é a serra, não planícies”, destacou, sublinhando o caráter silvestre e as características serranas específicas do animal.
O processo de criação envolveu um primeiro período de investigação, seguido de dois anos e meio de filmagens no terreno. A familiaridade com as gentes da região, com quem partilhou refeições e convívio, permitiu agilizar o trabalho e captar os “mitos” da serra que figuram no documentário, revelando um território “vastíssimo” de lendas e histórias.
A pós-produção, edição e montagem prolongaram-se por mais dois anos, totalizando oito anos de trabalho. O resultado final reflete a passagem do tempo sobre pessoas, animais e territórios, mostrando, segundo o realizador, que os humanos estão ainda “numa fase muito embrionária desta relação de quem somos perante a Natureza”.
“Fosfeno” foi financiado pelo programa Garantir Cultura e outros apoios, com produção da Os Inúteis. Contou com o apoio das autarquias de Viana do Castelo, Ponte de Lima e Arcos de Valdevez, além de instituições de investigação e centros de natureza. Miguel Filgueiras salienta a importância do financiamento público, que permitiu não apenas realizar o filme, mas também “investir na comunidade” que serve de cenário e personagem à obra.
Depois da apresentação em Salónica, onde integra a competição “Film Forward” do festival, o documentário segue para festivais em Montreal (Canadá) e Perm (Rússia). A estreia nacional está prevista para o final do ano.




