Um grupo de 28 professores de universidades e politécnicos de todo o país uniu-se num manifesto que apela à interdição pura e simples das ferramentas de inteligência artificial generativa nas salas de aula e trabalhos académicos. O alerta é severo: o uso indiscriminado destas tecnologias está, na sua visão, a transformar os estudantes em “cretinos digitais”.
O documento, subscrito por nomes como Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa, e João Teixeira Lopes, catedrático da Universidade do Porto, descreve um cenário de degradação pedagógica. Os docentes argumentam que os modelos de linguagem e chatbots funcionam como “fábricas de produção de lugares-comuns”, soterrando os métodos de estudo tradicionais e promovendo a fraude e o plágio em série.
“Convertidos em cretinos digitais, demonstram muito pouca curiosidade intelectual”, pode ler-se no manifesto, que associa o uso da IA a um alarmante declínio na saúde mental dos alunos, com níveis de ansiedade a “subir aos píncaros”.
O problema, sustentam, não se fica pelos estudantes. Os próprios professores estão assoberbados pelo “dilúvio digital”, com crescente dificuldade em detetar trabalhos fraudulentos. O texto é particularmente crítico da resposta das instituições de ensino, acusando-as de, por medo de ficar para trás, adotarem uma política de “portas abertas” e se limitarem a produzir regulamentos e grupos de trabalho de “eficácia tendencialmente nula”.
A solução proposta é radical: uma “suspensão generalizada” do uso destas ferramentas nos processos de ensino, como passo necessário para encontrar “caminhos e soluções alternativas”. Além dos já citados, estão entre os subscritores Elísio Estanque (Universidade de Coimbra), Raquel Varela (Universidade Nova de Lisboa) e Ema Pires (Universidade de Évora).
O apelo surge no mesmo dia em que a OCDE divulgou o relatório “Digital Education Outlook 2026”, que aborda os impactos da IA na educação. Um estudo citado no documento, realizado com alunos norte-americanos, veio complexificar o debate. Concluiu que os estudantes que usaram IA obtiveram melhores classificações, mas revelaram uma inquietante “preguiça metacognitiva”: a esmagadora maioria era incapaz de se lembrar do conteúdo do seu próprio trabalho pouco tempo depois de o terminar, ao contrário dos colegas que não usaram a tecnologia.






