Quarta-feira, Abril 1, 2026
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Sucessão de incêndios no Alto Minho preocupa bombeiros

Entre 16 de outubro de 2025 e 30 de março de 2026, o concelho de Arcos de Valdevez registou 92 incêndios rurais, o que corresponde a uma média de 0,56 ocorrências por dia, ou seja, um incêndio a cada 1,8 dias. Estes números, que abrangem meses tradicionalmente menos críticos, expõem uma pressão operacional constante sobre os Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez. É a partir desta realidade que Germano Amorim, presidente da direção da corporação, defende uma reforma profunda no modelo nacional de combate aos incêndios rurais, propondo o fim do atual dispositivo DECIR e a criação de uma estrutura permanente e profissionalizada, ativa durante todo o ano.

Face aos múltiplos incêndios ativos nos últimos dias não só em Arcos de Valdevez mas também nos concelhos vizinhos do Alto Minho, Germano Amorim considera que o modelo sazonal já não responde à realidade climática, territorial e criminal que o país enfrenta. Segundo o dirigente, os bombeiros estão no terreno muito antes da ativação oficial do DECIR, enfrentando ocorrências exigentes com meios limitados, equipamentos desgastados e viaturas que acumulam avarias devido ao esforço contínuo. “Hoje, em Arcos de Valdevez e nos concelhos vizinhos, temos múltiplos incêndios ativos. Isto não é exceção, é a nova normalidade. O risco é permanente. O apoio também tem de ser”, afirmou.

O advogado e presidente dos Bombeiros de Arcos de Valdevez aponta quatro fatores que, no seu entender, tornam obsoleto um dispositivo pensado para uma realidade que já não existe: as alterações climáticas, que prolongam e intensificam o período de risco; a desorganização territorial e florestal, que favorece a propagação dos incêndios; a falta de cultura de prevenção, que continua a ser negligenciada; e o aumento das ignições de origem criminosa, que introduz um fator de imprevisibilidade crescente. “O DECIR continua a funcionar como se estivéssemos nos anos 90. Hoje, o fogo não tem estação. Só o dispositivo é que continua a ter”, criticou.

Germano Amorim critica ainda a lógica de reforço concentrado em apenas alguns meses do ano, considerando que essa abordagem não só é ineficaz como coloca bombeiros e populações em risco. “À data de hoje, com vários incêndios ativos na região, continuamos sem o reforço que só chega no verão. Isto não é planeamento, é improvisação”, sublinhou.

Um dos pontos mais fortes da posição de Germano Amorim é a defesa da profissionalização total do dispositivo de combate aos incêndios, uma proposta que reconhece ser polémica mas que considera inevitável. “Não podemos continuar a pedir a voluntários que enfrentem um risco permanente com estruturas temporárias. O país precisa de bombeiros profissionais, dedicados a tempo inteiro, com carreiras estáveis, formação contínua e meios adequados”, afirmou.

O dirigente faz questão de salientar que o voluntariado é uma força essencial e insubstituível, mas alerta que não pode continuar a ser o pilar central de um sistema que exige resposta permanente, técnica e altamente especializada. “O voluntariado deve ser valorizado, mas não pode continuar a ser o pilar central de um sistema que exige resposta permanente, técnica e altamente especializada”, reforçou.

Para Germano Amorim, Portugal precisa de um modelo permanente e profissionalizado que assente em equipas profissionais reforçadas durante todo o ano, manutenção contínua de viaturas e equipamentos, investimento estável e não sazonal, articulação operacional permanente entre bombeiros, proteção civil e forças de segurança, e estratégias de prevenção que não dependam do verão. “Não podemos continuar a reagir ao fogo. Temos de antecipá-lo. E isso só se faz com um dispositivo permanente, profissionalizado e devidamente articulado”, defendeu.

Germano Amorim antevê que as suas declarações possam gerar debate, mas considera que o foco do debate devia estar noutro lugar. “A sucessão de incêndios que estamos a viver hoje na região é a prova de que o modelo atual falhou. A polémica não está nas minhas palavras, está na inação”, concluiu.

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